Ela tateou os lençóis, procurando-o do lado da cama. A luz da sala avisou-a sutilmente a sua presença e os sinais da madrugada avançada. Ela virou-se, viu a luz do branco se prolongar sobre a parede encostada à cama. Virou-se novamente e observou os detalhes da cômoda planando sob a suave escuridão, as roupas nos cabides, os livros... Fechou os olhos na porta e deixou-se aos reclamos dos detalhes da noite
DÁ-ME AMOR!
DÁ-ME AMOR QUE JÁ É HORA!
Sem saber porque, esperava. Janelas batiam-se, bocas invisíveis mexiam-se e repetiam em coro o surto insone
DÁ-ME UM AMOR! UM AMOR MAIOR DO MUNDO
Dá-me um amor que não tem graça
Dá-me um amor, não um sussurro
Dá-me um amor, o tempo é surdo
Dá-me um amor que a vida passa
Ela teimou em virar para um lado, para o outro. Os olhos insistiam em não descansar. Os ouvidos arrastados pelos ruídos surdos da madrugada buscaram a distância das vozes insistentes
Dá-me um amor
Não sem razão
Um amor que corre
calçadas
Colhe estrelas
Aquece o silêncio
Visita tardes cinzentas
Abraça as noites vazias
Embriaga-se de vinho
Ela se deliciou com o travesseiro macio e tentou não sentir os ombros doídos com os movimentos repetidos e tensos. Respirava forte, alto para acordar a noite que lhe deixara só. A chuva escorria acanhada pelas vidraças embalando batidas agradáveis. Aqueceu-se com aquele som. Som, som, sonido que vem, suspiro que vem, AH!
Dá-me um amor!
Dá-me um amor
Que é chegada a hora
Acorda que o nosso tempo passa!
O terreno arenoso é sopro verve de brisa
É rigorosamente seco
Sorve toda a água
que lhe ofertamos
Dá-me um, ao menos um amor!
Que se debulhe em flores
Que transborde esse vaso
de cheiro quente
Petrificada, encolhida com um dos travesseiros entre as pernas, olhou a luz contornando a porta que os separavam. Ele sempre tardava a chegar, preferia embrulhar-se pelas madrugadas, nos quase sempre óbvios programas de TV... ou na rede. Ela não sabia porque, esperava. Esperava a hora que pudesse encostar-se ao seu corpo, aquecê-lo. Esperava a hora do abraço morno que lhe traria o sono.
Não vai!
Vem!
A garoa esfria o ar
A água escorre pelo concreto embrutecido
O meu coração abunda em ausência
Estou aqui
Olha para mim!
Dá-me amor!
A solidão não se comparte
Nela o silêncio escuta
Mas juntas ouvimos o ressonar da noite
Enquanto a chuva amolece as certezas do verão próximo
e molha as vielas poeirosas aonde o amor se refaz
Dá-me, amor!
Que a noite tarda
Faz-me voar amor!
Que o tempo passa
E mais um dia vem
Ela se deliciou com o travesseiro macio e tentou não sentir os ombros doídos com os movimentos repetidos e tensos. Respirava forte, alto para acordar a noite que lhe deixara só. A chuva escorria acanhada pelas vidraças embalando batidas agradáveis. Aqueceu-se com aquele som. Som, som, sonido que vem, suspiro que vem, AH!
Dá-me um amor!
Dá-me um amor
Que é chegada a hora
Acorda que o nosso tempo passa!
O terreno arenoso é sopro verve de brisa
É rigorosamente seco
Sorve toda a água
que lhe ofertamos
Dá-me um, ao menos um amor!
Que se debulhe em flores
Que transborde esse vaso
de cheiro quente
Petrificada, encolhida com um dos travesseiros entre as pernas, olhou a luz contornando a porta que os separavam. Ele sempre tardava a chegar, preferia embrulhar-se pelas madrugadas, nos quase sempre óbvios programas de TV... ou na rede. Ela não sabia porque, esperava. Esperava a hora que pudesse encostar-se ao seu corpo, aquecê-lo. Esperava a hora do abraço morno que lhe traria o sono.
Não vai!
Vem!
A garoa esfria o ar
A água escorre pelo concreto embrutecido
O meu coração abunda em ausência
Estou aqui
Olha para mim!
Dá-me amor!
A solidão não se comparte
Nela o silêncio escuta
Mas juntas ouvimos o ressonar da noite
Enquanto a chuva amolece as certezas do verão próximo
e molha as vielas poeirosas aonde o amor se refaz
Dá-me, amor!
Que a noite tarda
Faz-me voar amor!
Que o tempo passa
E mais um dia vem
Ela seguiu os seus passos até a porta abrir-se dando passagem ao azul profundo da noite. Longe das luzes artificiais seus olhos cederam. O silêncio abrigou o cansaço e seus braços responderam mansos. Ele dormiu.
Fátima