comprei espreguiçadeiras
costurei panos verdes para abastecê-las
andei pela Paulista, Matarazzo em Sampa
estive no Planalto do Brasil
voltei
estou conectada, e...
me espreguiçando sobre os panos verdes.
Fátima (em trânsito)
Com as águas de março
Meu caminho, deves saber
não é imune
De manhã
não sei se acordo
ou se durmo
É embriaguez de cheiro amarelo
como chegar às flores do cercado
Meu caminho é prestimoso
Assim o deves ver
Sequioso a cada passada
Esses molambos que pesam os ombros
às vezes invisíveis
são objetos
que a curto prazo
comemos
mastigamos
digerimos
Marcam e desaparecem a cada tomada
Meu caminho
talvez não seja assim tão certinho
São prováveis (des)caminhos
de uma estrada
em que meu pé afunda
sempre
Mas uso botas
Apesar do peso
consigo levantá-las
Fátima
Amor em três tons
O velho violão está lá, encostado à mala, exposto aos arredores do vento que sopra freneticamente metendo-se entre as cordas de metais. É ele que entra brecha adentro e desata um som quase mudo (uuuuuuuuuuuuuuuu), saculejando o corpo de madeira já desbotado e seco. As janelas arquejam em repetidas batidas (tactactac), percussivos sons que acompanham o ato. O velho violão continua lá parado, retesado ao lado da mala. Está se acostumando àquela mala, ao canto da casa, à agudeza daquele vento. Espera um toque, uma carícia mais leve em suas cordas rijas, mas o vento é abrasivo e toca-o com aspereza. O velho violão espera, assim como a mala vazia. O vento insiste, entra desatinado, arrebatador pela vias abertas. Entra e sai sem pedir licença, derruba a mala. Afinal já é velho conhecido dos cantos da casa, já sabe como se fazer ouvir e por isso toca tudo exigindo reverência. O mar o traz, a casa o recebe, já faz parte daquele velho ambiente vespertino. Mas o velho violão, não! Nem a mala! Ela não estava lá, antes naquele lugar. São visitantes! Por isso o vento toca, bate na mala, desfigura o som do velho violão, desafina-o sem respeito, sacode seus duros trastes. O velho violão se entrega e espera pelo fim daquele drama. À noite, a brisa salobra do mar invadiria o quarto. O seu cheiro despertaria o seu som mais belo. Ele a espera, espera sempre por seu toque úmido, suave, escorregadio. Quanto a mala, será cheia e seguirá seu destino.
Fátima
Fátima
uma noite com Samira
Ela tateou os lençóis, procurando-o do lado da cama. A luz da sala avisou-a sutilmente a sua presença e os sinais da madrugada avançada. Ela virou-se, viu a luz do branco se prolongar sobre a parede encostada à cama. Virou-se novamente e observou os detalhes da cômoda planando sob a suave escuridão, as roupas nos cabides, os livros... Fechou os olhos na porta e deixou-se aos reclamos dos detalhes da noite
DÁ-ME AMOR!
DÁ-ME AMOR QUE JÁ É HORA!
Sem saber porque, esperava. Janelas batiam-se, bocas invisíveis mexiam-se e repetiam em coro o surto insone
DÁ-ME UM AMOR! UM AMOR MAIOR DO MUNDO
Dá-me um amor que não tem graça
Dá-me um amor, não um sussurro
Dá-me um amor, o tempo é surdo
Dá-me um amor que a vida passa
Ela teimou em virar para um lado, para o outro. Os olhos insistiam em não descansar. Os ouvidos arrastados pelos ruídos surdos da madrugada buscaram a distância das vozes insistentes
Dá-me um amor
Não sem razão
Um amor que corre
calçadas
Colhe estrelas
Aquece o silêncio
Visita tardes cinzentas
Abraça as noites vazias
Embriaga-se de vinho
Ela se deliciou com o travesseiro macio e tentou não sentir os ombros doídos com os movimentos repetidos e tensos. Respirava forte, alto para acordar a noite que lhe deixara só. A chuva escorria acanhada pelas vidraças embalando batidas agradáveis. Aqueceu-se com aquele som. Som, som, sonido que vem, suspiro que vem, AH!
Dá-me um amor!
Dá-me um amor
Que é chegada a hora
Acorda que o nosso tempo passa!
O terreno arenoso é sopro verve de brisa
É rigorosamente seco
Sorve toda a água
que lhe ofertamos
Dá-me um, ao menos um amor!
Que se debulhe em flores
Que transborde esse vaso
de cheiro quente
Petrificada, encolhida com um dos travesseiros entre as pernas, olhou a luz contornando a porta que os separavam. Ele sempre tardava a chegar, preferia embrulhar-se pelas madrugadas, nos quase sempre óbvios programas de TV... ou na rede. Ela não sabia porque, esperava. Esperava a hora que pudesse encostar-se ao seu corpo, aquecê-lo. Esperava a hora do abraço morno que lhe traria o sono.
Não vai!
Vem!
A garoa esfria o ar
A água escorre pelo concreto embrutecido
O meu coração abunda em ausência
Estou aqui
Olha para mim!
Dá-me amor!
A solidão não se comparte
Nela o silêncio escuta
Mas juntas ouvimos o ressonar da noite
Enquanto a chuva amolece as certezas do verão próximo
e molha as vielas poeirosas aonde o amor se refaz
Dá-me, amor!
Que a noite tarda
Faz-me voar amor!
Que o tempo passa
E mais um dia vem
Ela se deliciou com o travesseiro macio e tentou não sentir os ombros doídos com os movimentos repetidos e tensos. Respirava forte, alto para acordar a noite que lhe deixara só. A chuva escorria acanhada pelas vidraças embalando batidas agradáveis. Aqueceu-se com aquele som. Som, som, sonido que vem, suspiro que vem, AH!
Dá-me um amor!
Dá-me um amor
Que é chegada a hora
Acorda que o nosso tempo passa!
O terreno arenoso é sopro verve de brisa
É rigorosamente seco
Sorve toda a água
que lhe ofertamos
Dá-me um, ao menos um amor!
Que se debulhe em flores
Que transborde esse vaso
de cheiro quente
Petrificada, encolhida com um dos travesseiros entre as pernas, olhou a luz contornando a porta que os separavam. Ele sempre tardava a chegar, preferia embrulhar-se pelas madrugadas, nos quase sempre óbvios programas de TV... ou na rede. Ela não sabia porque, esperava. Esperava a hora que pudesse encostar-se ao seu corpo, aquecê-lo. Esperava a hora do abraço morno que lhe traria o sono.
Não vai!
Vem!
A garoa esfria o ar
A água escorre pelo concreto embrutecido
O meu coração abunda em ausência
Estou aqui
Olha para mim!
Dá-me amor!
A solidão não se comparte
Nela o silêncio escuta
Mas juntas ouvimos o ressonar da noite
Enquanto a chuva amolece as certezas do verão próximo
e molha as vielas poeirosas aonde o amor se refaz
Dá-me, amor!
Que a noite tarda
Faz-me voar amor!
Que o tempo passa
E mais um dia vem
Ela seguiu os seus passos até a porta abrir-se dando passagem ao azul profundo da noite. Longe das luzes artificiais seus olhos cederam. O silêncio abrigou o cansaço e seus braços responderam mansos. Ele dormiu.
Fátima
Chão de casa (de Lila)
Sei de seu sorriso
De sua voz
De sua cara triste, amarrada
Sei de você...
e de seu sonho
De tua morada
De teu prazer
De tuas angústias
Sei de mim...
e do meu amor
Nos encontramos em cerrados longínquos
Onde o vale cercado de pedras aborta luz
... e calor
Extraímos a dor do cinza da seca transplantada...
em nós
E vivemos a beleza do amor maduro
Do Ingá em flor
De sua voz
De sua cara triste, amarrada
Sei de você...
e de seu sonho
De tua morada
De teu prazer
De tuas angústias
Sei de mim...
e do meu amor
Nos encontramos em cerrados longínquos
Onde o vale cercado de pedras aborta luz
... e calor
Extraímos a dor do cinza da seca transplantada...
em nós
E vivemos a beleza do amor maduro
Do Ingá em flor
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